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junio 13th, 2013Número 2, Reseñasadmin 0 Comments
Ensaios no real

Ensaios no real: o documentário brasileiro hoje
de César Migliorin (org.)

por Patrícia Vaz (Universidade Federal de São Carlos

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O documentário brasileiro, desde os anos 1990, tem ganhado visibilidade no cenário nacional não apenas pelo crescimento vertiginoso no volume de produções, mas também pelo interesse em narrativas documentais em festivais, pesquisas e publicações. O livro organizado por Cezar Migliorin vem contribuir com essa bibliografia com indagações e reflexões que surgem a partir de narrativas complexas, seus contextos, métodos e abordagens. Composto por 12 artigos, escritos por pesquisadores1 de significativa relevância no âmbito das pesquisas sobre audiovisual, o livro traz múltiplas abordagens sobre documentários brasileiros contemporâneos.

Na apresentação da obra, Migliorin anuncia: “o documentário contemporâneo é o nome de uma multiplicidade” (p. 09), a partir do qual se atam características como a indiscernibilidade, indefinição, incerteza. O autor aponta essas características não como desvantagens, mas como “trunfos”, que conferem a liberdade, complexidade e grandeza ao documentário, e o afasta de uma definição estanque. Migliorin deixa claro, no texto inicial, o tom que guiará os artigos seguintes. Com entusiasmo ele reivindica ao documentário um lugar de resistência às imagens clichês, aos discursos totalizantes, reacionários e limitantes sobre o outro. Migliorin fala de uma “potência acontecimental” (p. 15) que permite às imagens “se desdobrarem em mundos desconhecidos, irredutíveis à programação” (p. 15).

Os textos reunidos fazem um apanhado de questões que refletem os desafios do documentário contemporâneo, em um mundo “que já se dá como imagem” (Andréa França, p. 86), e todas as implicações decorrentes dessa premissa, pois estamos por demais acostumados com imagens televisivas, telas eletrônicas da internet, reality shows, coberturas jornalísticas. Afinal, como desautomatizar os discursos? As possíveis respostas para estas questões parecem se delinear com as investigações proporcionadas pelos filmes escolhidos e as referências teóricas que permeiam as discussões. Como, por exemplo, a constante apropriação e leitura dos textos de Jean-Louis Comolli, que embasam algumas das análises, análises estas que privilegiam o acontecimento, fala e gestos surgidos do encontro entre cineasta, entrevistado e câmera. Dessa relação surgem personagens que “se fabricam” e vivenciam uma “experiência fílmica compartilhada”, como sintetiza Ilana Feldman (p. 166).

Para ilustrar tais questões, os autores lançam mão de uma densa cadeia de documentários que propõem outros modos de se relacionar com o real: aqueles que têm na entrevista sua principal ancoragem (como os citados no artigo de Miguel Pereira e no de Ismail Xavier); aqueles que, produzidos fora dos ambientes profissionais, reconfiguram o cotidiano e trazem à tona outras temporalidades e “novas experiências do sensível” (no artigo de Ivana Bentes); documentários que se unem às artes plásticas e às experimentações de linguagem (como os analisados por Andréa França); documentários ensaísticos que subvertem as dimensões confessionais e biográficas (citados por llana Feldman); além daqueles que mobilizam o espectador à espera da ação que não ocorre, apenas o tempo dilatado onde quase nada acontece, no qual o protagonista é o tempo (filmes analisados por André Brasil e Cláudia Mesquita); os que se inclinam à árdua tarefa de mostrar outras faces do homem ordinário, que não o reduzem à pobreza e à violência (os analisados por César Guimarães). A variedade e complexidade destas narrativas são agenciadoras de novos modos de ver e se apresentam como verdadeiros exercícios do olhar.

Ao longo dos textos, vimos constantemente os articulistas recorrerem ao documentarista Eduardo Coutinho: seus métodos, recursos e narrativas, ora através de análises completas de seus filmes, ora para compará-los a outros procedimentos, ora citando-o brevemente. Tal recorrência pode ser facilmente justificada pela importância do diretor no cenário nacional, devido a sua projeção e à qualidade e volume de obras. Cada filme nos abre para o mundo de possibilidades advindas desse outro, que se revela e desvela diante da câmera, em narrativas que costumam ter a entrevista como principal forma dramática. Os elogios ao cineasta, em sua maioria, referem-se ao modo como ele se coloca diante do entrevistado, como mobiliza a palavra e trabalha sua produção na perspectiva do encontro: suas reações, falas e contexto encapsulados em um momento único de interação e significação.

Essa reflexão nos leva a um comentário recorrente do professor Fernão Ramos aos seus alunos: rindo, ele conta que certo dia fez uma viagem de carro com Coutinho, partindo da cidade de Campinas à cidade de São Paulo. Chegando ao destino final da viagem, Ramos se deu conta, surpreso, que em menos de uma hora tinha contado toda a sua vida para o cineasta. Fernão ficou comovido com a maneira como o cineasta o deixou à vontade, a forma sutil com a qual o instigou a responder às perguntas, enquanto fazia uma escuta despretensiosa e sem julgamentos.

O que Fernão percebeu ali, enquanto parceiro de viagem, Coutinho repete em seus vídeos. Esse encantamento, que arrebata comumente entrevistados e espectadores, parece ter, no livro, se apropriado também dos autores: pelo menos 6 dos 12 artigos da coletânea analisam ou citam vídeos do cineasta. Embora em diálogo com outras produções e realizadores, tal repetição pode levar a uma interpretação errônea por parte dos leitores de que o documentário brasileiro contemporâneo constitui-se apenas por Coutinho e alguns outros poucos cineastas, que não têm a mesma visibilidade. Além do mais, é preciso atentar para o discurso uníssono sobre o cineasta. Essa admiração inconteste deve ser repensada com o intuito de dar espaço também a análises que possam investigar os equívocos, questionar os métodos, perceber modos outros de problematizar as narrativas do cineasta: prerrogativas fundamentais para proporcionar uma discussão equilibrada e pautada pela multiplicidade e diversidade das falas.

Não podemos negar, no entanto, as profundidades das análises desenvolvidas e a clareza das exposições, capazes de proporcionar uma prazerosa leitura sobre os métodos em vigência nas narrativas atuais, abrindo caminho para novas pesquisas na área. O modo didático com que os autores expõem seus argumentos é outro dado relevante, à medida que acolhe também o público em geral através da explicitação dos conceitos utilizados, dos contextos e dos exemplos.

ensaios (130 x 201)Cezar Migliorin (org.), Ensaios no real: o documentário brasileiro hoje, Azougue Editorial, Brasil, 2010.