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octubre 18th, 2020Sin categoríaadmin 0 Comments

O Beijo no Asfalto
de Murilo Benício

por Meire Oliveira Silva

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A tragédia carioca1  em três atos, O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, data de 1960 e foi apresentada pela primeira vez no teatro em 1961. Já a sua primeira adaptação cinema- tográfica é de 1981, sob a direção de Bruno Barreto, a partir do roteiro de Doc Comparato. Entretanto, a segunda e mais ousada versão da peça rodrigueana para o cinema contou com a direção de Murilo Benício, com lançamento nacional em 6 de dezembro de 2018, apesar de seu projeto datar de 10 anos antes, pelo menos.

Em sua estreia na direção em cinema, Benício também é autor do roteiro, mas mantém-se  fiel ao texto do dramaturgo. Sua fidelidade e subversão da peça rodrigueana situa-se entre as  inserções originais ao produto fílmico, nas telas – tais como a preparação de atores -, até a  leitura do texto e os debates com o diretor de teatro, Amir Haddad. Isso sem contar as intervenções preciosas da atriz Fernanda Montenegro, ao relatar sua participação na montagem  original de 1961, como Selminha, a mulher de Arandir, o bancário que beijou o atropelado na  Avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro, em plena luz do dia. Benício é filmado várias  vezes, entre os atores, mas não como um Hitchcock episódico, e sim como um maestro a reger  sua orquestra de perto na passagem e discussão de texto, roteiro e possibilidades de atuação.

O ato de afeto, a princípio banal, choca os presentes e é matéria primordial de sensacionalismo por parte do jornalista Amado Ribeiro (o ator Otávio Müller), autor de uma difamação  que passa a explorar o preconceito em torno do termo da homossexualidade. Questão julgada previamente pelo princípio da moralidade ou pela chamada conduta inaceitável em  sociedade, mas não porque se tratava de um crime necessariamente previsto em lei, na  década de 1960.

O próprio sogro do autor do beijo, Aprígio (Stênio Garcia), assevera que havia presenciado  a cena entre Arandir (Lázaro Ramos) e o morto, mas com certa ressalva; definitivamente, não se  tratava de uma comiseração a um estranho na hora da morte, mas de um gesto notoriamente obsceno.

O jornal, por sua vez, se vale desse fato para afiançar que os dois personagens já se conheciam através da manchete «Não foi o primeiro beijo, não foi a primeira vez». No entanto,  para além das questões morais, o filme explora os limites da comunicação, para tentar alcançar e transmitir o que é a verdade. Questionar a própria linguagem do teatro –ao transpor  dramaturgia ao cinema– e também tirá-la –não só dos palcos, mas do texto e da página–, já  subverte toda uma ideia a pairar em torno dos limites das linguagens artísticas.

A leitura do texto, um dos iniciais e principais passos da encenação teatral, é mesclado  a representações que deixam propositalmente clara a presença de câmeras, microfones e  outros elementos estranhos à diegese. Tal qual Lars Von Trier, em Dogville (2003), existem  tomadas que desnudam cenários e fantasias revelando também, quem sabe, a ficção a servir como  reflexão sobre a necessidade de rompimento com o pacto da verossimilhança. Não há apenas encenações, mas reproduções de cenas que partem de certas verdades. Naturalmente, é  possível encaixar todos os indícios como passíveis de dúvidas.

O espectador é levado, por meio da quebra da quarta parede, a dialogar com a obra e  participar dela ativamente, observando suas nuances e oscilações. A tensão da quebra dos paradigmas narrativos aumenta, ainda que em consonância com os episódios tensos do enredo,  sejam eles relativos à estória ou às questões morais.

E, como numa teia emaranhada de referências mitológicas, essa tragédia se constrói, a partir  do terror vivenciado pelos personagens e reverberado na estranheza do espectador. Selma (Débora Falabella), a bela e jovem esposa do bancário Arandir (Lázaro Ramos), mostra-se uma mulher  exemplarmente servil e apaixonada pelo marido. Sua irmã caçula, Dália (Luiza Tosi) –de forma inconfessável, mas claramente, em lapsos– nutre uma paixão platônica inegável pelo cunhado.

Mostra-se, mesmo secundariamente, como uma personagem ambígua e dona de um espírito  vivaz e ameaçadoramente adolescente. A fotografia em preto e branco de Walter Carvalho garante a atmosfera misteriosa a nortear a trama. Cabe ao espectador dar o veredito, quem  sabe, como Dona Matilde (Fernanda Montenegro), cegamente, apenas guiada pelos fatos  expostos –e, portanto, incontestáveis– do periódico. «Estava no jornal» parece ser a definitiva  afirmação para além de qualquer consciência crítica ou minimamente curiosa.

Utilizando elementos da tragédia grega, Benício faz da adaptação da dramaturgia de Nelson Rodrigues uma obra didática de modo a transmitir ao público uma moralidade explícita, mesmo que não necessariamente intencional. Desse modo, acaba partindo justamente do que choca, enoja e revolta, tal como o conservadorismo cada vez mais evidente da sociedade brasileira, ancorada no julgamento inquisitorial que prescinde da máxima de «ridendo castigat mores«.2 Tanto em 1960 quanto em 2018, a onda reacionária e conservadora, não somente latino-americana, mas mundial, garante a atualidade do texto e alça Nelson Rodrigues ao patamar dos autores visionários.

Por meio de representantes da justiça –o delegado Cunha, interpretado por Augusto Madeira e seu assistente e que se consideram acima de qualquer julgamento– ou nas alegorias encarnadas por um repórter que está disposto a tudo para alcançar seus objetivos, a ética moralizante é revista e dialoga vivamente com a era atual das fake news e do conservadorismo latente. Ambos ancorados no ódio destruidor a deliberar que vidas não valem nada e no âmbito de uma notícia bem escandalosa. Cada like tem o poder de exterminar uns ao passo que podem garantir a ascensão de outros.

Psicanaliticamente, o desfecho caminha rumo ao escancaramento da hipocrisia, bem aos  moldes rodrigueanos. Porém, em meio às desconfianças dos desejos incestuosos de Aprígio  sobre a filha Selminha –levantados até pela caçula Dália–, é o tabu da homossexualidade  que emerge por meio do amor «invertido» –para utilizarmos um termo da época veiculado no  filme– do sogro pelo genro. Assim, vem à tona o pivô do aniquilamento moral de Arandir. E é  por meio do desnudamento da hipocrisia social pautada pelos recalques morais, a permear a  obra e seus cidadãos acima de qualquer suspeita, blindados pelo statu quo, que o grotesco se  anuncia. Indivíduos de conduta irrepreensível que, assim como o supostamente injustiçado  Arandir, são tentados pelas circunstâncias pecaminosas que os levam, inclusive, a espiar a  jovem cunhada no banho.

É como se nenhuma das personagens fosse vítima, mas assustadoramente produto de  um meio doentio, a própria miséria humana. A peça traz todas as taras abjetas e infames  exploradas pelo autor pernambucano, com a verve contemporânea que possui o poder mágico  de trazer à lume uma personalidade artística não limitada ao seu tempo-espaço, mas capaz de  antecipar diversas chagas contemporâneas. O acompanhamento da tragédia se dá então por  meio, inclusive, da denúncia dos desmandos dos policiais vis que obrigam a esposa do acusado  a ficar nua em situação vexatória durante interrogatório, que mais se assemelha a um episódio de  tortura seguido de sentença condenatória. É imperativo ressaltar o abuso de poder das forças  dominantes em relação aos sujeitos vitimados pelos desmandos ideológicos e institucionais.

Um hiato de dez anos entre idealizações e a produção final marcou o processo do projeto original de realização do filme. E toda essa empreitada –a partir do Fundo Setorial do Audiovisual e da Riofilme, além do Canal Brasil– mostra a necessidade de se produzir arte e cinema no Brasil. O beijo no asfalto parece configurar a bandeira de que «Sempre sobreviveremos», como Fernanda Montenegro, em 2018, comenta na mesa de ensaio das leituras do roteiro com seus colegas. A atriz dá voz à fofoqueira personagem Matilde também quando não a representa –disseminando conservadorismos aniquilantes em forma de boatos–, mas sendo a memória do que avassaladoramente foi História que, inestancável, está fadada a se repetir.

libroMurilo Benício, O Beijo no Asfalto, Brasil, República Pureza Filmes, 2017.