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julio 11th, 2012Reseñas, Sin categoríaadmin 0 Comments
Ethics of Realism

World Cinema and the Ethics of Realism
de Lúcia Nagib
por Mauro Luciano de Araújo

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Em tempos do império globalizado, os gêneros saem da antiga nomenclatura baseada em emoções expressas pelo espectador, pela recepção, como os seguintes: cômicos (comédia), dramáticos (drama), ação, aventura. Tais gêneros se encaixam numa terminologia clássica. Em termos modernos, o realismo (documentário), a avant garde (New Wave), a noção de um filme composto por regras de uma arte culturalmente mundial toma proporções maiores, atraíndo atenção e solicitações de público. É o caso do gênero muito discutido atualmente, e de suas abordagens – o World Movie.

Tal gênero compõe um campo geral que encontra também uma cultura que se desterritorializa e ganha intensidades diferenciadas de percepção, já pautadas pela noção de espaço dos discursos artísticos e mídiaticos contemporâneos. Lúcia Nagib, integrante do corpo de professores da Universidade de Leeds na cadeira do gênero citado, World Movies, lança um novo livro que pretende acrescentar ao debate fílmico uma intensidade acadêmica, em diversas medidas. Não se trata somente da abrangência que pode ter o gênero em dias atuais, mas de compreender seu atual contexto envolvendo os Estudos Culturais e suas pesquisas em desdobramento. O título World Cinema and the Ethics of Realism, lançado pela editora Continuum, alonga o que seria um histórico do gênero citado em campanha acadêmica já situada pela crítica ao ilusionismo hollywoodiano.

Esta crítica já se vê conhecida pela cinematografia européia e pelo ativismo de uma grande parte da produção do terceiro cinema, temas que são adornados pelos filmes e diretores escolhidos por Nagib. A hipótese do livro, a propósito, segundo a própria autora, é a simulação evitada pela arte cinematográfica mesmo quando a intervenção da montagem eisensteineana, ou seja, a intervenção do discurso acima do realismo captado, é adotada. Desta forma, ainda o sentido adotado por Brecht da desalienação, estranhamento, distanciamento, desconstrução através da própria evidência do processo de construção da narrativa teria seu realismo conduzido por um avanço. Um degrau acima, proposto pela autora quando avista a teoria das atrações de Tom Gunning —a “representação”, no cinema, torna-se “apresentação” (presentational aspect). André Bazin, portanto, ao pontuar a ontologia da imagem fotográfica, cinematográfica por conseqüência, havia posto o ponto inicial para o realismo que se adornava à sua época. Aí se dá a etapa de um filme que não se propõe somente como um buscador de massas, ou um criador de universos em que a realidade se envolve pela magia do entretenimento— mas um filme que retrata uma cultura muitas vezes vista como exótica, ou, diferente.

Temos então uma apresentação de realidades que em sua proporção não se caracterizam como hegemônicas, e fazem parte de um filão bem comum à proposta atual de remodelação da cultura global. Põe-se como uma necessidade, então, a discussão ética destas propostas que contrapõem a imaginação dos filmes do cinema hegemônico. O ponto principal da hipótese defendida pela pesquisadora passa pela realidade consumada, ou pela realidade construída pela mídia —que é o cinema. Ou seja, em linhas práticas, o realismo, que segundo Jacques Ranciére teve sua curva fundada contemporaneamente ao início das gravações cinematográficas, possui um percalço ético que seria inerente à sua própria constituição. Nisso, certamente a ontologia bazaniana já possuía em sua advertência critica.

O livro se pressupõe à maneira cognitivista, juntando partes de imagens distantes que se confirmam com o mesmo discurso, sem a diferenciação clássica entre mente e corpo – segundo a linha epistemológica adotada pela autora. As imagens cinematográficas, longe de serem uma criação da mente, apesar de imitar uma percepção ideal, se formam no próprio processo de criação. Parâmetros técnicos possuem sua moral, segundo a frase atribuída a Jean Luc Godard —Le travelling est une question de morale; modificada por Luc Moullet— La morale est affaire de travellings. A questão se confirma na varredura deste real que é, segundo o livro, um ponto ético historicamente arranjado pelos gêneros das new waves, dos realismos incitados pelos cinemas do pós guerra, e das novas manifestações do World Cinema.

A primeira parte do livro se intitula Physical Cinema (cinema físico). Em seu primeiro texto, The End of the Other (o fim do outro), trata, além de outras nuances, do engajamento autoral e dramático dos atores diante dos filmes, status que se apresenta como “evento”, tal como prognostica Alain Badiou. Elenca os filmes Atanarjuat, the Fast Runner (Zacharias Kunuk, 2001), primeira produção Inuit; Yaaba (Idrissa Ouédraogo, 1989), filme que pôs o povo Mossi, de Burkina Faso, nas telas; Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha, 1964) e Les Quatre cents coups (François Truffaut, 1959), estes dois últimos já bem pontuados em uma outra obra cujo retorno da utopia é estimulado.

No segundo capítulo a autora volta a discutir o autor alemão e fenômeno da mídia Werner Herzog, uma de suas especialidades de análise. Observa a forte influência do Cinema Novo brasileiro no autor da New Wave alemã, assim como sua presente discussão sobre o entrelaçamento entre os gêneros de ficção e documentário. No texto, percebe-se a natureza e física do cinema, pressuposta nos filmes e nas declarações do autor, e lembrada pelo filósofo Gilles Deleuze.

Após a divisão da segunda parte de sua obra, Nagib recomeça a discussão com Glauber Rocha e Mikhail Kalatazov —Terra em Transe, 1967, e Soy Cuba, 1964. Na parte intitulada The reality of the medium (a realidade do meio) temos o paralelo proposital entre as heranças teóricas de Bazin e Eisenstein, confrontadas nos filmes do cinema Latino Americano. A junção do longo plano sequência e da montagem de atrações em Glauber Rocha também evidencia tal confronto, previsto no conceito de realismo defendido em toda a obra de Nagib— o realismo do meio, ou um realismo conceitual admitido pela política autoral.

No quarto capítulo surge a discussão de Crime Delicado (Beto Brant, 2006) da art in progress (The work of art in progress: an analisys of Delicate Crime), revisando algo que remonta a uma pesquisa feita com entrevistas no Brasil sobre o chamado “Cinema da Retomada”. Tendo como um dos mais significativos representantes do momento pós-embrafilme, o cineasta Beto Brant compõe seu filme longe dos ditames de uma industrialização do cinema brasileiro atual, deslocando um olhar sobre a concepção do corpo e sua dessimetria num espaço artístico (teatral e plástico) mimetizado constantemente na diegese fílmica. Mais uma vez o misto entre figurativismo e a apresentação realista, que bem cabe ao entorno de produções com pretensões estéticas mais apuradas.

Em The Ethics of Desire, terceira parte do livro, lê-se The Realm of the Senses, the Ethical Imperative and the Politics of Pleasure, com anotações sobre o desejo voyeurístico no filme de Nagisa Oshiima (censurado em vários países, Império dos Sentidos, 1976), ou, o não-visto (fora de campo) de André Bazin como perpetuação de um realismo politicamente importante.

Na parte quatro, intitulada The Production of Reality (A produção de realidade), a autora aproxima-se do documentário íntimo, ou intimista, de Kazuo Hara e Sachiko Kobayashi. O casal quebra um tipo de realismo, impondo uma outra perspectiva real após essa quebra, da maneira que uma New Wave japonesa propunha anteriormente em fins da década de 60. A proposta aloca-se num filme independente, produtor de uma realidade diferente da imageria anteriormente gerada pelo modo de produção de estúdios e grandes orçamentos, adentrando em um universo do particular, já bem delineado em discussões contemporâneas. Assim se confirma a relatada imagem-tempo, de uma fenomenologia realista da vida posta em telas, em apenas 5 produções ao longo de 36 anos de atividade do casal. Vê-se nesta parte o artigo bastante interessante que versa sobre a autoria do renomado cineasta português: The Self Performing Auteur: Ethics in João César Monteiro, que se punha como ator em seus filmes. Analisando a figura adotada por Monteiro em seus filmes, chega-se à clara conclusão de que sua performance também é parte de sua autoria, capacidade incorporada pela sua personalidade e por suas declarações públicas –uma “autobiografia de deus”, o criador da mise en scéne.

world-cinema-and-the-ethics-of-realismLúcia Nagib, World Cinema and the Ethics of Realism,
Continuum Pub Group, Estados Unidos, 2011.